Você já olhou para fora da janela hoje?

...

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Estamos sendo observados...

Se você fosse um E.T. e estivesse em largas observações ao que se passa em nosso pequeno Planeta Azul, buscando a melhor forma de entender esta civilização ultrapassada, onde você estaria no dia 23/01?

Olhem só por onde nossos amigos E.T.s estiveram...

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Wheels when you want them

O Léo vem falando de uma idéia parecida (ou igual, acho) faz tempo... bom, alguém mais também pensou nisso e já montou uma empresa nos EUA e UK. É a ZipCar, que diz estar redefinindo o modo como as pessoas pensam sobre transportes... menos carros, menos trânsito e menos poluição.

O conceito é que o "assinante" tem acesso a carros para uso "por hora", espalhados por diversos locais da cidade ou país. E recentemente fecharam uma parceria com o ParkAtMyHouse.com, que tem a mesma filosofia, mas pensando em vagas de estacionamento ou garagem. 

Chega de todos aqueles carros eternamente parados nas garagens de prédios ou das imensidões de estacionamentos vazios ocupando terrenos que podem ser melhor utilizados. Not bad, uh?

"Além do Materialismo Espiritual"

Este é o livro que está frequentando minha cabeceira nas últimas semanas, do mestre budista Chögyam Trungpa.

"O percurso correto do caminho espiritual é um processo muito sutil e não alguma coisa a que possamos atirar-nos ingenuamente. Existem numerosos desvios que levam a uma distorção egocentrada da espiritualidade; podemos iludir-nos, imaginando que estamos nos desenvolvendo espiritualmente quando, na verdade, não fazemos senão fortalecer nosso egocentrismo por meio de técnicas espirituais. A essa distorção básica pode dar-se o nome de materialismo espiritual."

"Na realidade, não desejamos identificar-nos com os ensinamentos ou vir a ser os ensinamentos. Assim, quando nosso mestre fala em renúncia do ego, tentamos imitar essa renúncia. Cumprimos as formalidades, fazemos os gestos apropriados, mas, na verdade, não queremos sacrificar parte alguma de nosso  modo de vida. Tornamo-nos atores habilidosos e, ao mesmo tempo que brincamos de surdo-mudos com os verdadeiros significados dos ensinamentos, encontramos algum conforto fingindo seguir o caminho."

"Não importa o que possamos usar para chegar à autojustificação: a sabedoria dos livros sagrados, diagramas ou mapas, cálculos matemáticos, fórmulas esotéricas, religião fundamentalista, psicologia profunda, ou qualquer outro mecanismo. ... Toda vez que temos uma noção dualística como, por exemplo: 'Estou fazendo isso porque quero atingir determinado estado de consciência, um determinado estado de ser', automaticamente nos separamos da realidade que somos."

UFF, para mim foi como um SOCO NO FÍGADO, "GUILTY AS CHARGED, YOUR HONOR"!!

E, lendo agora, ainda me fez lembrar dos Scuppies do Léo... ATÉ NOSSA ESPIRITUALIDADE ANDA VAZIA HOJE EM DIA...

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

R U Scuppie?





Scuppie é a nova filosofia de vida
Eles vivem bem. São pessoas abastadas. Mas querem aprender a gastar, gastar "conscientemente". Felizes conscientes. Eco-mauricinhos, diz com ironia um jornalista veterano. O neologismo scuppie agrupa os indivíduos que, segundo suas próprias palavras, desejam "viver bem enquanto fazem o bem".
Embora contraditória para alguns, a palavra é um acrônimo resultante da expressão "socially conscious upwardly-mobile person" (algo como pessoa ambiciosa socialmente consciente), e surgiu quando Chuck Failla (comentarista de assuntos econômicos da CNN) colaborava com o cantor Bono num projeto de ajuda social. Foi ele quem teve a ideia do chamado Manifesto scuppie, cuja filosofia pode ser encontrada em
http://www.scuppie.com/
Failla se questionou se não era possível querer ascender profissionalmente e, ao mesmo tempo, ser socialmente consciente. "Ainda que eu ganhe dinheiro - responde Chuck Failla - não me esqueço que vivo em comunidade. Sei que devo envolver-me nas lutas pelo meio ambiente e contra a injustiça social".

Leiam um trecho do Manifesto Scuppie:
"Looking, acting and being a Scuppie isn’t just for politically correct movie stars, shaggy-haired high-tech gazillionaires and those lucky few who can afford to endow entire hospital wings in Africa or convert their Porsche Cayenne SUVs to run on hydrogen. Neither is social consciousness only for impassioned ascetics who distain flush toilets, subsist on tofu and brown rice, and yearn for the eventual overthrow of the capitalist system. You don’t have to be a zealot or a dilettante, just somebody who want to make the world a better place—and to be comfortable, well-fed and stylish while doing it."

Seriam os scuppies eco-chatos modernos, ou parte de uma nova consciência emergente?

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Para Além do PIB

Há muito radicalismo no Fórum Social Mundial, mas também muita sensatez.

Vejam a discussão desta temática...Depois valhe tentar pegar a íntegra na web.

Como criar uma organização que tenha indicadores que sustentem estes valores que estão além do aspecto financeiro?

Para além do PIB : Por que precisamos de novos indicadores de riqueza?
Hoje, o Produto Interno Bruto (PIB) tornou-se o indicador de referência para nossas sociedades, que evocamos e utilizamos na definição dos investimentos e das políticas públicas. Confundimos o PIB com a riqueza de um país, enquanto ele é somente uma estimativa do que, na atividade humana, é mensurável do ponto de vista monetário.
Assim, ele contabiliza positivamente numerosas atividades “destrutivas” como guerras, poluição, doenças, desde que estas atividades gerem fluxo monetário. Inversamente, ele ignora um conjunto considerável das riquezas não monetárias, como a saúde individual, a qualidade dos vínculos familiares e comunitários, o acesso à água e à terra, a qualidade de vida de uma forma geral (sono, silêncio, qualidade do ar ), a soberania das populações, entre outros.
Como pensar novos indicadores de riqueza e desenvolvimento? Como incluir a dimensão sociocultural e a dimensão ambiental nas variáveis que definem o “progresso” ?

Eixos de Reflexão :

- Por que e como o PIB tornou-se medida de referência para o “progresso” ou “desenvolvimento” de nossa sociedade?;
- Contradições e Paradoxos do PIB;
- Exemplos de projetos de novos indicadores que incluem as dimensões ambientais, sociais e culturais.

Objetivos

- Tornar visíveis projetos diversos de construção de novos indicadores
- Criar diálogo e participação da sociedade civil no processo de definição dos indicadores
- Incentivar a criação de pontes internacionais entre os diversos projetos de novos indicadores

Animadores/Palestrantes : Chico Withaker, Patrick Viveret , Danielle Mitterrand, André Abreu, Alain Ruellan, Ladislau Dowbor, Claudio Nascimento, Marcos Arruda, Oded Grajew, entre outros

O Jogo do Improviso

Um ótimo ano aos Curingas de plantão!

Que seja um 2009 de improviso e inovação para a quebra de nossas próprias barreiras.

Seja o improviso como no post do Fábio (abaixo) ou o jogo do improviso, de nossos amigos palhaços.

Eles estão com cursos novos e um espaço com atividades periódicas. Valhe a pena ficar atento.

http://www.jogandonoquintal.com.br/

domingo, 18 de janeiro de 2009

Ideia que eu queria ter tido...

Às vezes vocês também ficam com aquela sensação de que queriam ter tido uma idéia que alguém já teve?

Essa aqui é uma delas pra mim:


Um 2009 inspirado

Queria desejar um ótimo 2009 nessa primeira postagem do ano. Que tenhamos um ano de muitas idéias e de muita ação também, com êxitos e iluminação para a jornada de cada um.

E para lhes inspirar, indico visitarem o site de um artista bem peculiar, que pinta o ser humano integral, conectado com seu corpo, mente, espírito e natureza. Algumas destas pinturas são feitas a partir de experiências místicas. Além da precisão anatômica e beleza das cores, suas pinturas são uma forma interessante de visualizar o mundo de forma não-dual, cada um de nós como parte de um todo mutante e em evolução, e como se dá a interação com esse todo.

Alex vê a missão da sua arte como uma forma de ilustrar a alma e exercitar a percepção interior e ligação com o divino, para uma sociedade tão acostumada a perceber somente o aspecto exterior das coisas. Boas inspirações!

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

"As a man, describe a time you have felt powerless based solely upon your gender"

Bem interessante este fórum no site IntegralLife.com, nunca tinha olhado a fundo a discriminação por este lado. Parando para pensar, vejo muitas situações no nosso cotidiano atual em que me sinto assim. E voce, curinga?

"Several years ago my marriage collapsed after my wife entered into a relationship with another man, a younger man. I did not have knowledge of it until she was irreversibly entrenched in the affair. We had a few talks. We went to a mariage counselor. I learned that I was being counseled to accept the change. We separated. We are going to be divorced. That's it! I felt powerless then. I feel powerless now. A unilateral decision was made. Done. No serious discussion about the cause(s) took place. The counselors accepted the woman's choice. The woman was not inclined to discuss why. No comment to me from family, friends, or workplace then or now. I would have welcomed interest and help. None. My point. The male stereotype is strong and silent. The female stereotype is weak and noisy. I was treated as a stereotypical male and she a stereotypical female. The culture legislated against me in favor of the woman on every level. All she had to say was "people change." Had I done the same thing the culture would have sympathized with the woman. It seemed that all of the consideration in this action was in the woman's favor. So, on one hand she was given the benefit of the doubt, i.e, I was justly left for another man without explanation, and on the other I am a man, and therefore there is no discussion necessary. I would be an adulterer if I was having the affair. The woman is excused by virtue of her sex and the new view of women as independent and free."

domingo, 14 de dezembro de 2008

O Cético e a Ciberliberdade

Uma visão interessante sobre a importância do processo em contraposição à excessiva preocupação com o planejamento e resultados finais.

Há também questões-chave sobre os processos de comunicação e aprendizagem hoje e no futuro.

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O CÉTICO E A CIBERLIBERDADE

Por Marco Aurélio Fiochi e Mariana Lacerda

Paraibano de Taperoá, Silvio Meira seria engenheiro eletrônico se não tivesse se deparado, ainda estudante, com um computador. Era 1973 e ele tinha 18 anos quando viu, no fato de poder programar uma máquina, a possibilidade de criar ferramentas que facilitassem o cotidiano das pessoas, proporcionando mais qualidade de vida a todos. Um dos responsáveis por fazer do Recife, cidade que escolheu para viver, importante pólo nacional de conhecimento em tecnologia da informação, é professor de engenharia de software na Universidade Federal de Pernambuco e autor de duas centenas de textos sobre tecnologia e seu impacto na sociedade, que o tornaram referência no assunto. Nesta entrevista, Meira define-se como cético, embora creia que mais valem os caminhos e os processos trilhados do que, necessariamente, os resultados alcançados. "Acredito na capacidade dos seres humanos de, em conjunto, mudarem seus destinos inarredáveis. Não concebo que alguém esteja fadado a alguma coisa, mesmo que sejam suas crenças."

Quais são suas crenças? Em que acreditou que se tornou realidade?

Sou ateu absolutamente convicto, um cético praticante que sempre duvida das coisas. A maior parte dos projetos em que estive envolvido resultou de um caminho que segui. Os caminhos são parcialmente definidos pelo que se vai fazer, mas também influenciados pelo contexto ao redor.
O ponto de chegada não é, necessariamente, o lugar em que se acreditou no princípio. O mais importante é aproveitar caminhos e gerar resultados.

Você não crê em um objetivo formatado, mas, sim, na construção de um caminho, um processo?

Trabalho e vivo dentro de um processo que poderia ser chamado de emergência. Não acredito em destino, não sou do tipo que planeja que daqui a três anos terá determinado cargo ou realizará tal projeto. Acredito muito mais em processos, caminhos, estágios do que em destinos e pontos de chegada.A discussão sobre o conceito de emergência considera que a combinação de regras simples faz surgir situações complexas...Em parte é isso. Mas pode-se ter sua própria emergência. Não é necessário que haja fatores externos. De repente, ao fazer algo, é possível descobrir que se está construindo um caminho para chegar a algum fim. A noção de emergência, do ponto de vista moderno, do planejamento das empresas, leva em conta o mercado, a competição. A pessoa tenta definir os caminhos que vai seguir contemplando a dinâmica das interações. À medida que se entende o comportamento dos agentes ao redor, criam-se para si mesmo e para seus pares processos de inovação que levam a um futuro, um lugar, um conjunto de expectativas, interpretações, posições.

Você acredita em algo utópico?

Acredito na capacidade dos seres humanos de, em conjunto, mudarem seus destinos inarredáveis. Não concebo que alguém esteja fadado a alguma coisa, mesmo que sejam suas crenças. Nunca tive planos para fazer o que consegui fazer e participar das coisas de que participei. Muitas delas chegaram e eu as aceitei devido à minha crença na necessidade dos seres humanos de estarem abertos às opiniões dos outros e às oportunidades que aparecem. Talvez a coisa que eu mais tenha feito seja olhar para a idéia do outro e pensar que ela é muito melhor do que a minha. Então, desejo colaborar para a feitura daquela idéia. Nunca carreguei qualquer idéia na mão em que saísse dizendo por aí que acredito naquilo e que aquilo vai acontecer de qualquer jeito.

Nesse sentido de escutar o outro, o que estamos ganhando com o fato de, cada vez mais, vivermos em rede, numa sociedade da informação? O que perde e o que ganha quem está na rede?

Se olharmos para a história, veremos que sempre se viveu em redes. Os seres humanos são gregários por natureza. O que aconteceu é que a pessoa deixou de viver em seu grupo geograficamente conexo, que foi estendido por um mecanismo de dessincronização de sua capacidade de comunicação. Se pensarmos antropologicamente, os grupos humanos só podiam se comunicar com eles próprios. Como não tinham o domínio da escrita, que é a codificação da informação que permite que ela seja deixada para trás ou levada para a frente, para o futuro e para outras geografias, ficavam parados, fechados entre eles. O que vem acontecendo na história da humanidade é que, à medida que começamos a codificar o que pensamos, a criar a capacidade de transferir isso no espaço e no tempo, ampliamos as redes. Um grupo passou a ser composto de muitos autores, vários dos quais não são humanos. Isso é parte de um processo iniciado há milhares de anos. O Orkut não aconteceu do zero, mas, sim, como conseqüência desse processo. Carrego um twitter [servidor que possibilita o envio de textos via SMS, e-mail e outras formas] em meu celular, que me permite saber, por exemplo, o que meus alunos estão pesquisando. Posso interagir com eles de qualquer lugar onde esteja. Quando fazemos isso, eliminamos a noção de espaço e de tempo. No passado, eu só podia me reunir com meus alunos na universidade em que ensino.

A rede virtual ampliou as oportunidades de contato em uma escala nunca vivenciada na história da humanidade. Ela redesenhou o processo de formação de comunidades. As pessoas que não participam dessa construção coletiva, que inclui caminhos e crenças, estão ficando para trás.Você acredita, contudo, que quem está na rede pode estar perdendo algo?

Absolutamente nada. Viajo muito e "carrego" minhas duas filhas em meu telefone celular e em meu computador. Minha mulher está comigo no Google Talk e no Skipe. Deixo recado para meu filho no Orkut. Não tenho uma visão dramática da tecnologia. Existem pessoas surpresas com o avanço tecnológico. São do tipo de gente que também foi surpreendida, em outros tempos, pela criação da alavanca, da roda, pelo domínio do fogo e pela máquina a vapor. Sempre existiram pessoas que olharam para a tecnologia como se o mundo estivesse acabando. Mas o ser humano é instintivamente tecnológico. As ferramentas são parte do processo de intermediação entre o ser vivo e o ambiente ao redor. Não conseguimos apreender o ambiente em sua amplitude sem o auxílio delas. As primeiras experiências com máquinas fotográficas foram tratadas quase da perspectiva do exorcismo. Mas, hoje, a fotografia está absolutamente absorvida pela humanidade, a ponto de ser inconcebível um telefone celular sem câmera. Conheço várias pessoas que por muito tempo disseram "o celular vai destruir minha vida, porque vão me achar sempre onde eu estiver". É muita petulância de alguém não querer usar celular por achar que terá uma qualidade de vida pior, já que ligarão para ele. É ter um grau de auto-suficiência enorme. Eu olho para outro formato. No Brasil, há 148 milhões de celulares funcionando. Isso significa que estamos usufruindo uma qualidade de vida muito melhor do que a que se tinha em qualquer época de nossa história.Mas temos muito mais informação para processar...Minha tese é que isso vai aumentar ainda mais. Quando for possível a todos agregar aos aparelhos a rede social e o e-mail, estaremos muito melhor do que estamos hoje. Teremos ainda mais informação para processar? Sim! Então se apoderem dos instrumentos que permitem que elas sejam filtradas. Agreguem, referenciem, salvem as ferramentas de busca, caso queiram se tornar profissionais competentes e que entendam o mundo informacional conectado em rede que está ao redor. No futuro próximo, será inconcebível não saber manipular um aparelho celular, uma máquina fotográfica, o MySpace, o Google, o IM [recurso de comunicação executável por programas de mensagens instantâneas], e assim por diante. Porque essas ferramentas vão fazer parte da humanidade.

O que dizer da manutenção das tradições locais considerando que o mundo é uma "aldeia global"?

A expressão artística e cultural local que quiser sobreviver terá de se projetar globalmente. A cultura local que não se refletir no espelho da internet, para afirmar que é relevante globalmente, desaparecerá. Porque se os mais jovens - que são espelhados nessa máquina de produção de significados que é a internet - não virem nela o passado e o futuro de qualquer manifestação de cultura vão achá-la irrelevante. Participei intensamente de um processo interessante na capital pernambucana. O grupo Balé Popular do Recife [criado como parte do Movimento Armorial para resgate das danças e dos ritmos regionais] se deu conta de que para existir seria necessário projetar a cultura do estado no mundo. Esse grupo participou do processo de construção da noção local de que o maracatu é algo que faz sentido. Posteriormente, Chico Science percebeu que podia usar o maracatu como base para seus trabalhos musicais. Resultado: nunca se tocou tanto maracatu como hoje. As pessoas que passaram a apreciar esse ritmo não têm necessariamente ligação com terreiros de candomblé, mas se interessaram porque fizeram um passeio pelo passado dessa manifestação cultural guiadas pela linguagem contemporânea de Chico Science. Para ser sustentável localmente tem-se de ser perceptível globalmente.

Você acredita que obras de arte e livros se tornarão cada vez mais imateriais?

Cinco dos dez livros mais vendidos no Japão em 2007 foram feitos para celulares. O problema não é ser imaterial ou não; a questão é como a arte irá usar as mídias ao seu dispor. Por que no passado tão pouca gente lia e escrevia? Porque a infra-estrutura para isso era cara demais. Os tabletes de barro na Mesopotâmia [suporte onde povos antigos escreviam] eram difíceis de ser transportados. Quando passamos a contar com o papel e as prensas automáticas, vimos uma explosão na literatura. Atualmente, posso pegar um PDF de 200 páginas, uma tese de alguém que está na Filadélfia, por exemplo, e folheá-la na internet. Posso fazer uma leitura rápida desse material e concluir que seu conteúdo não me interessa. Isso a custo zero. No passado, eu tinha de mandar buscar aquele trabalho, que levaria meses para chegar, e então teria, depois de dispender muito esforço, tempo e dinheiro, a mesma conclusão: ele não tem nenhum valor para mim. Ou seja, quando se muda o suporte, é possível fazer coisas que tenham dinâmica e flexibilidade maiores a um custo muito menor.Você acredita que seja possível criar cidades digitais no Brasil?As cidades digitais serão uma realidade em todos os lugares do mundo. No Brasil, é uma questão de tempo. Todos precisam estar conectados à rede com no mínimo 10 MB [megabytes] de capacidade por segundo, em casa. Com menos do que isso, estaremos usando a internet como um cidadão de segunda classe. Pouquíssimos brasileiros estão conectados a 10 MB por segundo. Essa história de que somos os grandes usuários da rede, com mais de 27 horas per capita por mês, deve-se ao fato de que a performance de nossa internet é ruim. Seria o equivalente a dizer que os paulistanos gostam muito de andar de automóvel porque a média de horas que ficam no trânsito é de cinco por dia. Se o trânsito da cidade fosse bom, duvido que existisse uma pessoa com vocação para passar esse tempo todo em um carro.

O software livre pode ajudar a democratizar o acesso à informação?

Acho que o embate entre software aberto e fechado foi vencido por um negócio chamado non-software. Quando se usa o Gmail, por exemplo, pouco importa sua natureza, uma vez que é um serviço. Recentemente, a Microsoft anunciou que vai oferecer o Office também dessa forma. Não interessa o que ele será. A discussão é relevante do ponto de vista da educação, pois o programa aberto é um excelente meio para ensinar esse tipo de aplicativo. O assunto perde cada vez mais relevância porque o software foi para a rede, está sendo provido a partir dela como serviço e plataforma.

Como você vê o fato de as pessoas participarem da construção de um software, uma vez que ele tem uma plataforma aberta?

Uma coisa é passar o sentimento da poesia. Outra é poder observar a poesia escrita. Daí se pode pensar: eu não gosto dessa frase, vou trocá-la. Para trocá-la, o autor tem de ter licenciado o material para eu mexer nele, senão ela é uma obra artística intocável. O mesmo ocorre com um programa de computador. Se posso ver e mexer, isso é um artefato nobre de conhecimento. Agora, mesmo com a possibilidade de ver e mexer, não significa que se deva fazer isso. A poesia, por exemplo, poderá perder seu sentido. Não é todo mundo que deve e pode, e pior, que sabe fazê-la. Existe uma ilusão de que com o software livre o mundo melhorará, mas ele pode fazer o mundo piorar também. Se não tivermos autonomia intelectual e competência para mexer com eles, é melhor não fazê-lo. Porque se perdermos essa competência, seja porque nos desinteressamos seja porque outros que trabalhavam com ela desistiram, então o que fica é um grande problema para quem der prosseguimento a isso. Não se trata de um libelo contra o software livre. Por exemplo, se alguém quiser fazer modificações em seu próprio carro é bom saber que elas terão de ser arcadas por quem fez e não mais pela fábrica, que em tese tem a competência de mexer no automóvel. Isso vale para avião, eletrodoméstico e para software também. Este é um artefato tecnológico complexo que tem de ser tratado como tal. Contudo, é um superambiente de aprendizado.

Em que momento você passou a se interessar por tecnologia da informação?

Em 1973, quando entrei no ITA [Instituto Tecnológico de Aeronáutica]. Lá, havia um computador IBM em que era possível fazer programação com cartões perfurados. Ou seja, era uma máquina em que se podia mudar a função desde que houvesse um propósito. Achei aquilo fantástico, e foi um momento de redefinição da minha vida. Porque eu ia ser engenheiro eletrônico, mas na hora em que entendi a função daquele negócio não tive a menor dúvida de que iria passar o resto da vida envolvido com computadores. Uma das razões pelas quais continuo até hoje fazendo programação é porque não me sinto trabalhando. Como trabalho fazendo software, isso para mim sempre se pareceu com algo que atende a determinado conjunto estético e a regras executáveis por máquinas que não pensam, mas que têm sua serventia na construção de mundos virtuais. Quando se informatiza uma empresa, na verdade se está virtualizando aquele local em software e fazendo que seu mundo real passe a existir num sistema. Existem sistemas que dão conta do mundo real, fazem contabilidade, cuidam da folha de ponto, por exemplo. Mas o processo de construir mundos virtuais, entender para que e como eles servem, como podem influir na vida e na performance das pessoas e das instituições para mim sempre foi o maior barato, e mudou minha vida na hora em que percebi o que era possível fazer com uma ferramenta como o computador.

Em quais projetos você está envolvido no momento e no que acredita para o futuro?

Se tenho projetos, eles incluem ter menos crenças, ouvir mais as pessoas, dar menos minha opinião e ter mais tempo para colaborar com as idéias dos outros.